Duas Estórias sobre Seguro-Desemprego – Uma de Marte outra do Brasil

“Em Marte, o montante gasto pelo governo com o Seguro-Desemprego aumentou 400% na última década, e o número de desempregados diminuiu só um terço, nos conta o Marciano – sujeito esverdeado – , se sente decepcionado com a desonestidade que existe por lá.”

 1 – Seguro- Desemprego – Marte

Estava eu sorvendo meus últimos goles de vinho uma noite dessas, calculando para que o término do elixir findasse simultaneamente com a última baforada do não menos apreciado charuto, quando um Marciano puxou conversa. Não sou de conversar muito.

Principalmente com estranhos. Menos ainda com os Marcianos. Não sei, não gosto do tom de verde deles (nem sei se hoje em dia posso confessar isso, ou me acusarão de GreenFóbico). Mas aceitei a conversa, pois ele me pareceu muito chateado.

Me perguntou se eu poderia escutá-lo sobre o Seguro-Desemprego em Marte. Respondi que sim. Porém, como se quisesse trançar um pano de fundo para o assunto, começou a me contar sobre sua decepção com a forma que a política estava implantada em Marte na última década. Um partido político, autointitulado “dos trabalhadores”, assumiu o poder, e em vez de alavancar um progresso através de trabalho causou uma estagnação repleta de corrupção. Me falou alguma coisa sobre um desqualificado, com apenas 19 dedos, e algumas antenas, ter conseguido eleger um poste (não sei se entendi direito, pois meu Marcianes não é tão bom). Quanto mais ele me contava, mais verde ele ficava. Disse que estavam num importante momento político em Marte, que poderiam mudar tudo isso, mas parece que no primeiro turno das eleições pouca coisa havia mudado, pois palhaços, artistas e ex-jogadores intergalácticos tinham sido novamente eleitos para cargos importantes.

Me contou, já com a cabeça mais enorme que o normal, que um funcionário de uma estatal exploradora dos recursos naturais de Marte tinha feito uma delação premiada, envolvendo dezenas de políticos, e concordado em devolver milhões de Fictícios (como você sabe, moeda de Marte). Perguntei quanto esse montante equivaleria em Reais e quase engasguei com meu gole do néctar, pois ele calculou algo em torno de R$ 80 milhões. Perguntei a ele que se um funcionário confessou ter praticado crimes, e propõe-se a devolver essa fortuna, quanto não teriam roubado os políticos envolvidos? Pensei que as veias do pescoço fino dele iam explodir, e jorrar todo o sangue azul que já dominava seu enorme olho, quando ele respondeu que seriam bilhões desviados.

Pedi para ele se acalmar, mas não resisti e perguntei onde estava todo esse dinheiro. Ele me respondeu que em Vênus. Perguntei como esse dinheiro tinha ido parar lá. Ele me disse que um conhecidíssimo Venuleiro (contraventor que negocia com a moeda de Vênus) foi o responsável por enviar esses bilhões para Vênus. Me confidenciou que tal contraventor também estava detalhando os crimes através de outra delação premiada, mas que embora isso tenha sido divulgado intensamente nas últimas semanas, o poste teria tido mais de 43 milhões de votos. Me assustei. Não sei se pela informação ou se porque ele gesticulando freneticamente os seis braços derrubou nossos copos.

Perguntei como uma líder de quadrilha poderia ter mais de 43 milhões de votos e ele começou a (tentar) me explicar sobre Benefícios Sociais. Pelo que entendi, esse atual governo alcançou o número de 72 milhões de pessoas beneficiadas com algum tipo de Benefício Social. Ou seja, mais da metade dos eleitores. Perguntei o que os 72 milhões de pessoas faziam para receber esses Benefícios Sociais e ele me respondeu que nada. Absolutamente nada. Comecei a rir. Ele se irritou e tentou me chutar por debaixo da mesa. Parei de rir, me recompus e pedi para ele me explicar melhor. Ele me disse que não ia explicar tudo (acho que ficou magoado porque dei risada), mas que como tinha puxado conversa para falar de Seguro-Desemprego, ia me contar seus descontentamentos sobre esse assunto. Prevendo o que vinha, pedi um vinho do porto para nós.

Ele me disse que em Marte, quando um Marciano perde o emprego ele recebe do governo um valor a título de Seguro-Desemprego. Eu disse que a ideia me parecia paternalista, mas bacana. Ele disse que na teoria também gostava, mas que em Marte tudo tendia para a desonestidade. Pior, sempre comandada pelo governo. Me contou que como ele trabalhava com números (parece que não teve uma iniciação adequada e se tornou Contador), começou a pesquisar e descobriu que o montante gasto com esse Seguro cresceu 400% na última década. Como também gosto de números, tentei ajudá-lo a entender esse vertiginoso aumento perguntando se o número de desempregados também não tinha subido vertiginosamente. Após tomar o cálice de vinho do porto numa talagada só (acho que tentando exorcizar a raiva) ele me contou que também pesquisou sobre isso e apurou que o número de desempregados na realidade diminuiu percentualmente para apenas um terço. Ainda tentando ajudá-lo a raciocinar e, mais ainda, tentando não irritá-lo, perguntei se o montante com esses gastos eram significativos a ponto dele estar esfregando compassivamente um dos olhos. Errei na abordagem. Mais irritado ainda, quase arrancando o olho, ele me disse que esse ano a despesa passará de 45 bilhões, ou seja, disse ele, mais do que o governo gasta com infraestrutura.

Numa última tentativa de desvendar esse misterioso rombo, perguntei se o aumento de 400% nos gastos não seriam porque a população também cresceu nesse período. Com uma raiva contida, quase britânica, ele me asseverou que não era burro nem advogado (parece que o último tinha sido expurgado para Urano há muito tempo atrás) e que portanto sabia fazer contas e comparações. Ele continuou afirmando que a economia Marciana cresce em média menos de 2% ao ano e que o universo desses beneficiários cresceu apenas 74% nesse mesmo período, não os mais de 400% que os desembolsos públicos cresceram.

Desisti. Não conseguia enxergar uma explicação lógica para esse cenário. Foi quando ele me disse que se eu não o tivesse interrompido tanto, ele já teria me contado. Parece que se implantou em Marte um procedimento obscuro que teria a participação de aproximadamente 10 milhões de pessoas, empresas e, principalmente, do governo. Funciona mais ou menos assim (eu e ele já estávamos entregues a Baco), principalmente nas regiões Norte e Nordeste de Marte (onde parece que o poste teve mais de 70% dos votos): O cidadão perde o emprego; pede e consegue o Seguro-Desemprego; em seguida vai em outra empresa e diz que quer trabalhar, mas não quer ser registrado porque esta recebendo o Seguro-Desemprego. A empresa concorda, pois também não quer pagar mais de 100% de encargos que o governo impõe para uma contratação regular. E por fim, o governo que atualmente em Marte tudo vê, através de um Big Brother Fiscal, deixa isso ablogskiller e propagar-se, pois certamente contam com mais esses 10 milhões de votos.

Fiquei horrorizado. Percebi que o Marciano tinha ficado um pouco melhor, não sei se pelo porto ou pelo desabafo. Pensei um pouco e tive coragem de encorajá-lo: – Fique tranquilo. Deve ter uma Força Divina no Universo que iluminará todos para a eleição no segundo turno. Ele sorriu (eu acho) pegou seus três bonés e foi embora.

2 – Seguro-Desemprego – Brasil

Taxa de desemprego anual

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Marco Antonio Pinto de Faria

Bacharel em Ciências Contábeis, Administrador de Empresas, Auditor, Presidente e Fundador do Grupo SKILL composto por empresas atuantes no mercado há 40 anos, oferecendo serviços de Consultoria Tributária, Contabilidade e Tecnologia da Informação. Integrante do IBRACON – Instituto dos Auditores Independentes do Brasil.


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